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February 24, 2010

2. Da interpretação filosófica

Nota de Kant acerca da leitura de Rousseau

Ter gosto é um incômodo para o entendimento. Tenho de ler Rousseau tantas vezes até que a beleza da expressão já não me atrapalhe, e somente então posso esquadrinhá-lo com a razão. (Bemerkungen. ed. Ak, pg. 29)

February 19, 2010

1. Da interpretação filosófica ou como ler com sangue


1. A vida do discurso

Quando se trata de interpretar um texto existe um princípio hermenêutico que precisa ser levado em conta. Como se sabe a hermenêutica é uma ciência que fornece a chave para a compreensão de um discurso em geral (e de um texto em particular). Um dos problemas desta ciência, por exemplo, é o de como devemos lidar com um texto: preocupando-se apenas com seu sentido mais eminente, ou procurando entender o que o autor “quis dizer”? No contexto deste problema surge o princípio que mencionei, é o princípio da compreensão prévia de um discurso. Ou seja, por mais desconexo e descontextualizado que esteja um discurso é condição necessária de sua compreensão (e mesmo de sua incompreensão) algo que o próprio texto nunca fornece, por exemplo, a sintaxe e o vocabulário da língua. A questão filosófica por excelência neste caso pode ser vista com clareza no mecanismo de um dicionário comum de qualquer idioma. Quando procuramos o significado de uma palavra precisamos necessariamente ter algum conhecimento de outras palavras, e quando muitas palavras da definição nos são desconhecidas a dificuldade de compreensão aumenta consideravelmente. Quer dizer, se eu não sei o significado de uma palavra preciso, novamente, procurá-la no dicionário, e isto pode acabar se tornando um círculo vicioso. Qualquer um que tenha tido esta experiência pode testemunhar a dificuldade que é quando ao procurar uma palavra não entendemos o significado de outras na definição e assim por diante. A questão filosófica é: como eu aprendo a primeira palavra? Bem, no caso de um discurso estas dificuldades se multiplicam, principalmente porquê temos a tendência de procurar compreender as coisas da forma mais rápida e simples o possível, como sempre fazemos na discursividade cotidiana. E aqui podemos reconsiderar o problema apontado acima, na dicursividade cotidiana é fácil fazer ver que na maioria dos casos sempre entendemos o que nosso interlocutor “quis dizer”. Quando uma pessoa me diz “pegue a faca” não existe nenhuma dificuldade interpretativa, e pelo contexto pode-se até dizer muitas outras coisas, se a pessoa quer que se pegue a faca da mão dela, se ela quer que se leve a faca para ela, se a faca está aqui ou ali. E mesmo que surjam dificuldades interpretativas nestes casos eles são fáceis de resolver seja pelo contexto seja por uma pergunta. No caso particular de um texto não temos estes auxílios. E neste caso a hermenêutica optou pela primeira possibilidade acima descrita, a de considerar o texto isoladamente, como se ele fosse um todo, um organismo vivo (ou ao menos parte de um) e dispensar (ao menos inicialmente) quaisquer ajudas, por exemplo, da biografia do autor para compreender o texto (e devo confessar meu desdém por este tipo de interpretação através da biografia). Bem, neste caso, o que temos à mão é apenas o texto proposto e nosso próprio arcabouço de imagens, significados, palavras e conceitos (a nossa compreensão prévia). Bem, o texto proposto é um trecho de Assim Falou Zaratustra – Um livro para todos e ninguém, de Friedrich Nietzsche. Um trecho que se chama, sugestivamente, “Do ler e escrever”. Duas últimas ressalvas. Primeiro, quando digo compreensão prévia me refiro a algo mais do que apenas o arcabouço de informações que alguém (no caso eu) possa ter. Por exemplo, e o nome Zaratustra é muito bom para ilustrar este caso, quando ouvimos uma palavra desconhecida. Por mais eu não saiba o seu significado há qualquer coisa que eu entendo deste nome. Que é um nome oriental, se refere a Zoroastro, talvez? Que o personagem é (em seu aspecto pictórico e imagético) parecido com Cristo ou Sócrates, um pouco eremita, um pouco sábio, um pouco revoltado. Isto é o que chamo de compreensão prévia, é algo que eu já sei sobre o livro, apenas por ler seu título, e ter ouvido falar coisas aqui e ali. A compreensão prévia é, neste sentido, provisória. Eu tenho que testá-la, que refiná-la no fogo do discurso, e não é um pecado que ela se mostre falsa no decorrer do meu percurso de leitura. Por fim, podemos, pelo subtítulo Um livro para todos e ninguém supor que a questão fundamental deste livro é justamente uma questão hermenêutica, quer dizer, o próprio livro é um jogo de compreensão com seus leitores. Todos, podem chegar a lê-lo, e o livro para todos foi escrito, mas pode ser que ninguém o compreenda, que não se compreenda o que falou Zaratustra, que não se compreenda por quê ele falou ou ainda qual a diferença entre Zaratustra e Nietzsche. Tendo feito estas considerações introdutórias façamos a leitura do texto.

Do ler e escrever

De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é espírito.

Não é fácil compreender o sangue alheio; odeio todos os que lêem por desfastio.

Aquele que conhece o leitor nada mais faz pelo leitor. Mais um século de leitores – até o espírito estará fedendo.

Que toda a gente tenha o direito de aprender a ler estraga, a longo prazo, não somente o escrever, senão, também, o pensar.

Outrora, o espírito era Deus, depois tornou-se homem e, agora, ainda acaba tornando-se plebe.

Aquele que escreve em sangue e máximas não quer ser lido, mas aprendido de cor.

Na montanha, o caminho mais curto é de cume a cume; para isso, porém, precisa-se de pernas compridas.
Máximas, cumpre que sejam cumes; e aqueles aos quais são ditas devem ser altos e fortes.

O ar rarefeito e puro, a vizinhança do perigo e o espírito imbuído de uma alegre malvadez: coisas que combinam bem uma com a outra.

Quero ter duendes a meu redor, porque sou corajoso. A coragem que afugenta os fantasmas cria seus próprios duendes: a coragem quer rir.

Eu já não sinto do mesmo modo que vós: essa nuvem que vejo debaixo de mim, essa coisa negra e pesada – é, justamente, a vossa nuvem de temporal.

Vós olhais para cima, quando aspirais a elevar-vos. E eu olho para baixo, porque já me elevei.

Quem de vós pode, ao mesmo tempo, rir e sentir-se elevado?

Aquele que sobe ao monte mais alto, esse ri-se de todas as tragédias, falsas ou verdadeiras.

Corajosos, despreocupados, escarninhos, violentos – assim nos quer a sabedoria: ela é mulher e ama somente quem é guerreiro.

Dizeis: “A vida é dura de suportar” Mas para que teríeis de manhã, a vossa altivez e, de noite, a vossa submissão?

A vida é dura de suportar; mas, por favor, não vos façais de tão delicados! Não passamos, todos juntos, de umas lindas bestas de carga.

Que temos em comum com o botão de rosa, que estremece ao sentir sobre o corpo uma gota de orvalho?

É verdade: amamos a vida, porque estamos acostumados, não à vida, mas a amar.

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre, também, alguma razão na loucura.

E também a mim, que sou bondoso com a vida, parece-me que as borboletas e as bolhas de sabão e o que mais do gênero há entre os homens, são as que melhor conhecem a felicidade.

Ver voejar essas alminhas loucas, leves e graciosas – induz Zaratustra a chorar e a cantar.
Eu acreditaria somente num Deus que soubesse dançar.

E, quando vi o meu Diabo, achei-o sério, metódico, profundo, solene: era o espírito de gravidade – a causa pela qual todas as coisas caem.

Não é com a ira que se mata, mas com o riso. Eia, pois, vamos matar o espírito de gravidade!

Aprendi a caminhar; desde então, gosto de correr. Aprendi a voar; desde então, não preciso que me empurrem, para sair do lugar.

Agora, estou leve; agora voô; agora, vejo-me debaixo de mim mesmo; agora, um Deus dança dentro de mim.

Assim falou Zaratustra.


O primeiro aspecto geral deste texto, que freqüentemente é esquecido, é o seu título. E a primeira questão que um leitor precisa fazer é o que o sangue, o espírito, as montanhas, o riso e a seriedade, as borboletas e as bolhas de sabão e, por fim, a dança (para nomear algumas coisas) têm em comum com a leitura e escrita? Espero que isto não os desestimule numa primeira leitura, pois eu não compreendi. Bem, devemos, creio eu, iniciar pela primeira frase onde a leitura e a escrita são ainda explicitamente citadas, e procurar entender como, e se, elas se mantêm no decorrer do texto. Agora me deterei apenas sobre as primeiras frases deste texto tentando explicar, de alguma forma, o que significa ler e escrever com sangue.

De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu próprio sangue. Aqui podemos entender que Zaratustra nos dá o seu critério para encontrar um bom escrito. Devemos, pela formulação, conceder que Zaratustra leu muito, mas que deste muito apreciou muito pouco. Na verdade não importa a muita ou pouca leitura que ele tenha feito, pois ele diz algo que vale para tudo o que se escreve. Aparentemente é muita arrogância da parte dele dizer algo assim, mas permenece indiferente (e até dificulta a compreensão da leitura) acusar Zaratustra de arrogante, enquanto não sabemos o que significa, afinal de contas, este critério: escrever com seu próprio sangue. Talvez seja muito pouco o significado disto, talvez seja muito e apesar de muito seja algo que cada leitor pode testemunhar por si mesmo em sua experiência de leitura. Bem, em primeiro lugar, o que significa sangue? Sangue é vida: retire o sangue de um corpo, e ele morre. Retire o sangue de um membro do corpo, e ele morre. Diz o livro de Gênesis que Deus soprou sobre a escultura de barro, isto deu vida ao homem. E a palavra hebraica para sopro é a mesma que espírito. E agora é o espírito quem concede vida: Escreve com sangue; e aprenderás que o sangue é espírito. Quer dizer, o escrito precisa de vida, ele precisa de sangue, precisa de espírito, e ele precisa retirar isto de algum lugar, mas apenas dois podem conceder isto a ele: o escritor, e o leitor. Sim! Esta é a questão aqui. Não apenas que o escritor dê o seu sangue pelo escrito, mas que também o leitor o faça: Não é fácil compreender o sangue alheio; odeio todos os que lêem por desfastio. Quando algo é difícil dizemos que foi feito com suor e sangue. A leitura não é algo para se fazer para passar o tempo ou afastar o tédio, não que não haja prazer na leitura, como Zaratustra disse no início: aprecio. Há um gosto (liebe), mas é gostoso (por assim dizer) apenas aquilo que foi bem feito, aquilo em que há espírito. Como é triste para o Barista fazer um bom café que aqueles que o bebem não sabem apreciar. O escrito é como aquela escultura de barro, mas ela pode receber vida apenas na experiência de escrita e leitura. O leitor precisa dar o seu sangue, como Deus, soprar o seu espírito sobre a letra morta do texto, e lhe conceder vida. Ora, esta é a antiga distinção paulina entre espírito e letra, vocês se lembram? “A letra mata, mas o espírito vivifica”. Ah! Então o que nosso poeta afirma aqui já foi dito em outro lugar, na Bíblia, no livro de Romanos, por ninguém menos do que Paulo de Tarso, aquele que, reza a lenda, Nietzsche desdenha e odeia. Mas aqui, o que Nietzsche faz, é apenas retomar uma longa tradição de filósofos e teólogos que remontam aos primórdios do Cristianismo. Mas e o que significa a distinção entre espírito e letra?, ela vai nos ajudar a compreender este texto. Lá, para Paulo, esta distinção representa a teimosia (como das bestas de carga) em procurar compreender a Lei Mosaica ao pé da letra, isto é o que Paulo denomina letra morta. Como se uma pessoa, quando tenta ler uma palavra num idioma estrangeiro, tentasse, ao invés de pronunciar a palavra, pronunciar as letras isoladamente. De um ponto de vista ingênuo isto se parece com rigor, e cuidado, mas ninguém aprende a ler e entender e a apreciar um escrito soletrando todas as suas letras. Ou como se uma pessoa fizesse a lista de todas as regras e mandamentos que estão na lei e procurasse seguir todas elas diligentemente; e isto foi feito, se não me falha a memória uma das seitas judaicas reuniu uma lista com cerca de 613 regras encontradas tão somente no Pentateuco, e a obrigação de todos os membros desta seita era, justamente, seguir estas regras. Quando, de acordo com Paulo, o espírito da Lei, a sua mensagem, seu sentido, sua vida, é declarar que ninguém pode viver sob a Lei, mas que precisamos da Graça divina. É isto o que aqueles que lêem a Lei com sangue compreendem: que a tentativa de cumprir todas aquelas regras é suicídio, que a letra mata. Mas todos aqueles que lêem com espírito vivem também no Espírito; e podem, assim, receber, pela graça, a vida eterna. Qual é, no entanto, a contribuição que isto dá para a compreensão de Zaratustra? Ler e escrever com sangue significa: ler e escrever com sua própria vida, isto exige um escritor ou leitor completamente diferente do que estamos acostumados. Posso dizer, sem medo de errar, que este escritor e este leitor não existem. Esta idéia do escrever com sangue é o mesmo que era a Lei para Paulo, algo que não pode ser cumprido. No entanto, tentar ler assim nos mostra a nós mesmos, nossa decadência, nossa vida. É quando eu tento ler com a minha vida, que vivo a minha vida, que vejo a minha vida então entendo que: Aquele que conhece o leitor nada mais faz pelo leitor. Ora, isto, justamente, significa aceitar e entender que o escrito não foi feito para o meu prazer e deleite, ou que pela Lei ninguém pode ser salvo. Se eu conheço a mim mesmo entendo que não há nada que se possa fazer por mim, que eu não tenho esperança, não tenho saída, sou um miserável (como dizia Pascal). O escrito não está aí para suprir as minhas necessidades, mas ele tem vida própria, e suas próprias necessidades: ele precisa do meu sangue, do meu espírito e da minha vida. É preciso compreender que o escrito é um organismo vivo, que ele possui articulações, sistema nervoso central, musculatura: que ele possui vida e possibilidades. Que, assim como uma pessoa que não conhecemos toda de uma vez, o escrito se revela nos vários encontros que temos com ele, nas confidências, nas conversas tarde da noite. A vida que Nietzsche concedeu para sua obra agora é dela, e a obra agora pode compartilhar esta vida com quem ela quiser, com todos, ou pode dar esta vida apenas para aqueles que se dedicarem a ela, que a lerem com sangue, que quiserem viver com ela, e pode acontecer que talvez, ninguém seja capaz de a compreender em sua totalidade. Não importa que não a compreendamos completamente, mas que todas as partes que compreendermos que o façamos com sangue.

February 3, 2010

As rosas não falam - Cartola

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai...

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhar os meus sonhos
por fim


OUÇA:
http://www.youtube.com/watch?v=te2HfDsXcXs&feature=related