
”Eu digo que os deuses agem injustamente conosco. Por que eles nem vão embora e nos deixam viver nossos poucos dias por conta própria (o que seria a melhor solução), nem tampouco se mostram abertamente e nos dizem o que eles querem que nós façamos. Por que isso seria pelo menos tolerável. Mas simplesmente sussurram dicas, aproximam-se de nós em sonhos e oráculos, ou numa visão que desaparece tão logo quanto é vista, preferem se silenciar quando nós os perguntamos e apenas cochicham (palavras que nós não podemos entender) em nossos ouvidos quando nós desejamos ser libertos deles, e mostram para alguns aquilo que escondem de outros. O que é isso senão um jogo de gato e rato, cabra-cega, ou mero malabarismo. (…) Deixem eles responderem minhas dúvidas se é que eles podem. Pode ser que eles me enlouqueçam, ou me deixem doente ou me transformem numa besta, pássaro ou árvore. Mas daí o mundo todo saberá (e os deuses entenderão) que isso é porque eles não têm resposta.”
Em “Till We Have Faces” C.S. Lewis descreve a natureza humana que, decaída, não consegue se relacionar propriamente com Deus e consequentemente tem uma visão distorcida do que é amor. A passagem acima descreve bem a maior parte do livro, que conta o mito de Cupido e Psiquê do ponto de vista da irmã desta, Orual. O livro vai muito além da narrativa central, por isso só vou contar apenas o que já é, de certa forma, conhecido por aqueles que já ouviram tal mito.
Orual é uma princesa num país bárbaro. Seu pai é um rei amargurado e frustrado por ter apenas filhas mulheres. Orual é a filha mais velha do rei e é também extremamente feia, enquanto Psiquê é possivelmente a mulher mais bonita do mundo. As duas irmãs cresceram bem próximas, tem o mesmo mentor e sempre brincavam juntas. Quando ficam um pouco mais velhas uma praga recai sobre o reino onde moram, isso ocorre pelo fato da beleza de Psiquê ter causado inveja em Afrodite. Psiquê é dada em sacrifício para salvar o reino da praga, porém um deus a salva com a condição de não mostrar-lhe o rosto. Orual vai atrás do corpo da irmã e a encontra viva, porém não acredita que Psiquê foi salva por um deus que esconde sua face. Orual pede então para que ela ilumine a face do suposto deus para que ela descubra que é na verdade uma besta, ou alguém horrível. Psiquê relutantemente obedece Orual, porém ao fazer isto descobre que quem a salvou foi Cupido, que era também extremamente bem afeiçoado. Como punição por ter visto o rosto de Cupido, Afrodite transforma Psiquê em escrava, e assim ela perde todo o contato com Orual. Orual começa sua rebelião contra os deuses e decide cobrir o rosto com um véu, para que as pessoas não notem sua feiura. Durante o restante da narrativa Orual questiona os deuses, que por sua vez não lhe dão respostas.
C. S. Lewis é especialista em trabalhar em temas como amor e dor. Neste livro ele coloca ambos os temas de maneira reveladora. Pessoalmente, acho que é muito mais fácil entender estes conceitos em forma de mitos e parábolas. No livro, o amor de Orual por Psiquê é sincero, porém ciumento, possessivo e até perigoso. Ela não promove a liberdade de quem ama, porém não há verdadeiro amor sem liberdade. Mas isso não é óbvio no livro, pelo contrário, assim como na vida real, dificilmente percebemos quando somos egoístas. Por isso eu mencionei há algum tempo a parábola da árvore generosa, que também mexeu muito comigo. A parábola da árvore generosa mostra que às vezes usamos as pessoas que amamos para o nosso proveito, assim como também podemos nos doar e nos alegramos nisso. No livro, Orual até aceita se sacrificar, mas não aceita permitir que as pessoas próximas de si sejam livres. A consequência disso é que Psiquê sofre muito e é submetida a adversidades que Orual sequer imagina. Somente quando Orual pronuncia aos deuses suas reclamações é que ela entende o quanto seu amor possessivo por Psiquê fez esta sofrer. Os amigos que estavam próximos de Orual, apesar de sofrerem com seu egoísmo, nunca reclamaram. Isso porque eles permitiram que Orual fosse livre para que ela pudesse descobrir por si própria que estava errada. Quem ama sofre. Muitas vezes, quando sofremos, somos tentados a apontar nossas reclamações para Deus. Fato é que facilmente esquecemos que Deus não precisa dar respostas sobre sofrimento porque na tradição Cristã o próprio Deus veio para se sacrificar, para que os seres humanos fossem livres. Ele é amor e Ele sabe o que é sofrer, portanto Ele nos entende.
O que eu mais gostei do livro é o fato de a própria narrativa da história ser a resposta para as perguntas de Orual. Quando ela enumera suas reclamações aos deuses, ela começa a entender mais sobre si mesmo. Isso também ocorre quando ela começa a ouvir outras pessoas e percebe que estava errada. “Eu vi o porquê dos deuses não falarem abertamente conosco, nem nos responderem. Até que as palavras possam ser retiradas de nós mesmos, porque deveriam eles ouvir murmurações que nós pensamos significar algo? Como eles podem nos encontrar face a face se nós não temos face?”
Escondemos nossas personalidades atrás de máscaras e assim como a escrita pode revelar algo de nossa personalidade, podemos também esconder ou manipular a imagem que gostaríamos que as pessoas tivessem de nós. Pode ser uma imagem intelectual, galante, profunda, educada e até mesmo politicamente incorreta. Eu tentei todas aqui no blog. Por cinco anos tentei ser o mais sincero possível, e se não o fui foi por mera incapacidade de transmitir o que sentia. Os decadentes é um refúgio secreto onde podemos publicar o que vêm a cabeça e quase ninguém lê. Por meio de poesia, música e algumas reflexões decadentes eu tentei captar o momento que estava vivendo . Infelizmente, depois de cinco anos de blog, não mudei muito. Mas já encontrei respostas para alguns dos questionamentos lançados no início do blog. Num dos primeiros posts eu escrevi que tinha uma vaidade de querer saber todas as coisas e já perdi isso faz tempo (o que também já foi descrito em outros posts). Acho que minha postura não mudou, não é a toa que minha descrição dos decadentes é um monte de criança voando. O que se encaixa bem num post de dia das crianças.
Enfim, agora vou dedicar meus esforços no outro blog que eu escrevo (que também está abandonado por algum tempo). Pode até ser que eu coloque uma música ou qualquer outra coisa pessoal aqui, mas deixo de lado minha obrigação de escrever. Agradeço imensamente a todos que leram os meus posts por dedicarem um pouco de seu tempo para conferir minhas “idéias”, se é que posso chamar de ideia o que foi publicado por mim aqui. Agradeço também aos amigos fundadores do blog que, apesar de serem muito superiores na arte da escrita tiveram compaixão e agiram com graça em me convidar para participar deste “coletivo”.
A primeira citação deste post acaba com as palavras “eles não têm resposta”. E, portanto, concluo juntamente com o livro. “Agora eu entendo, Senhor, porque você não profere resposta. Você é a própria resposta. Diante de sua face todas as questões desaparecem. Que outra resposta seria suficiente? Somente palavras, palavras; que acabam por se batalhar com outras palavras. Por muito tempo eu te odiei, por muito tempo te temi. Eu posso…”




