Dedicado ao Jonathan, Vinicius, Douglas e Samuel. Amigos que, não obstante compartilharem diferentes opiniões sobre Deus, são contra o etiquetamento mencionado no texto.
Esse texto é uma crítica as "novas" ideologias calvinistas e ateístas.
O belo texto do Vinicius revela a grande tristeza de nossos dias. Nossa experiência com o sagrado se tornou dominical e vazia.
Quando pensamos em missão como algo relacional e redentor somos classificados como esquerdistas. Não entendo o porquê desta etiquetagem.
Para os conservadores somos liberais. Para os liberais somos conservadores. Para os novos ateístas somos seres menos evoluídos. Para os evangelicais somos radicais. Isso nunca termina. Um reducionismo louvado por uma modernidade que, não contente em classificar seres humanos, tenta limitar Deus a uma teoria teológica.
Os Decadentes dizem não a este tipo de minimalismo.
Um exemplo atual desse minimalismo é o de grupos que que se consideram teologicamente reformados. Eu particularmente gosto da Reforma, pois ela resgatou princípios que haviam sido desgastados pelo Cristianismo Institucional da Igreja Católica. A reforma também contextualizou o Cristianismo nas sociedades modernas, resolveu muitos dos problemas da época, mas não todos. Na sociedade plural em que vivemos não dá pra explicar tudo com cinco pontos ou com quatro leis espirituais!
Talvez a idéia acima não tenha ficado clara, então vamos ver um exemplo prático disso. A questão soteriológica reformada é formulada com base no pensamento jurídico. Não é preciso estudar cinco anos de Direito para saber que isso não é suficiente. Infelizmente eu estudei cinco anos e não demorou pra perceber que esse argumento é muito superficial. Parece que os "jovens" reformados não se renovaram muito nessa questão. Uma explicação prática desse tipo de teologia da Salvação é a seguinte:
- quando você morrer vai ter um julgamento (imagine o exemplo clássico do tribunal do júri, principalmente aquele dos filmes americanos).
- você é culpado e do teu lado tem um jesus que é teu advogado.
- do outro lado do tribunal tem o promotor, ou seja o diabo (que segundo alguns pastores vai mostrar um filme da sua vida - o diabo não contente com sua profissão jurídica resolveu fazer um curso de cinema e filmar sua autobiografia).
- o juiz é deus, que na visão conservadora tem preferência por europeus (principalmente os Suiços) e despreza os pobres, negros, latinos, muculmanos, hindus, etc.
- o resultado é um tanto inusitado, o advogado assume o crime, mas somente os crimes dos eleitos. É que deus na verdade tinha uma decreto escondido, onde tinha a lista dos eleitos. Aí você é salvo, ou não.
Simples assim.
Isso responde todas as suas perguntas?
Não!
Eu acredito que todos somos culpados (Chesterton mesmo disso que essa é a única parte da teologia que pode ser provada empiricamente). Podemos até dizer que a morte de Cristo têm um aspecto jurídico (porque essa é uma analogia que nós entendemos) mas ela vai muito além disso. Não dá pra adaptar a realidade divina numa realidade jurídica criada por homens. Como Don Fairbairn diz no livro Grace and Christology: “To speak of salvation merely as a matter of legal status before God or as forgiveness of sins alone is to skirt the truth that neither God nor human beings are primarily juridical in nature. If we are to be fully faithful to the message of Christ, we must see the link between redeemed humanity and God in other ways as well as these.”
A idéia neocalvinista de eleição ainda é fechada a um sistema de pontos, um sistema geométrico. Acredito que há sim uma eleição, mas como disse Barth, uma eleicão onde Deus tomou sobre si a condenação, a fim de abraçar a todos na sua eleição da graça (Kirchelische Dogmatik II/2 parágrafo 33). Simone Weil deu um exemplo sobre a cruz que ainda me fascina. Ela não encerrou o assunto num sistema fechado, mas exemplifica dizendo que a cruz é uma alavanca onde Deus tem que descer pra que a gente possa subir.
Estou cansado desse cristianismo sádico determinista. Parece que há um sentimento sádico escondido nesses cristão mais conservadores e antirevolucionários. Que prazer estranho este de querer queimar pessoas que a gente não gosta. Mas como sempre a elite, autoconsiderada eleita, pinta quem não gosta de vermelho. Aliás, não foi isso que a IPB fez durante a ditadura? Nada de novo debaixo do sol. Felizmente o espírito sopra aonde quer (Jo 3:8) não aonde alguns querem.
Sou contra rótulos, mas entendo aqueles que procuram conforto dentro de suas cavernas. Cada um no seu quadrado, onde tudo é explicado pelo lógica cartesiana. É muito mais fácil viver com um conjunto de verdades “reformadas” ou ateístas, porque elas não propõem nada de novo. Os jovens “reformados” propõem que os eleitos devem sobreviver e liderar os mais fracos. Os novos ateístas acham que os mais evoluídos devem liderar os religiosos. Ambos perpetuam uma ideologia de dominação (e.g. Kuyper influenciou o apartheid e Hitchens apoiou a guerra no Iraque).
Quem não aceita rótulo acaba sem proteção, mas ainda assim é etiquetado como moderado. Já escutei que os moderados escolhem o que querem acreditar, penso que é exatamente o contrário. Não ser restrito a apenas uma ideologia apresenta desafios ainda maiores. Mas estes livres, verdadeiramente livres pensadores, acabam por levar pedradas de todos os lados. Prefiro assim. Creio num Deus que é amor. Fui chamado e sou desafiado a ser livre, e me alegro na comunhão em Cristo e através de Cristo com meus irmãos decadentes.
Espero que vocês entendam o vídeo.