Saturday, November 07, 2009
O Pecado das Grandes Cidades II
Na mesma linha das postagens anteriores, tem vindo a mim nos últimos tempos uma sensação de desqualificação do espírito humano gerada por todo essa tecnocracia dominante. Não ocorre apenas ficarmos limitados e privados de liberdade, enquanto seres humanos, mas nossa própria natureza sofre um gradual processo de destruição.
Existem aqueles problemas óbvios: destruição mundial imposta pelo homem com o aquecimento global, deficiência na produção e distribuição de alimentos, ditadura do capital especulativo descolado da produção e do mundo real, alienação da grande massa através do modo de vida consumista, mediocridade e ignorância dos detentores de poder, etc. Não quero falar sobre essas coisas, mas sim observar porque não somos dados de uma tabela ou amontoado de células governadas pela bioquímica. Ainda que se isso fosse verdade já teríamos problemas mais do que suficientes para a destruição da espécie humana. A questão vai além e diz respeito à totalidade do homem enquanto Criatura, aquela vinda do pó da terra e movida pelo sopro do Espírito.
O homem precisa da natureza para se reconhecer, firmar sua identidade, criar valores que lhe são próprios. Quando vejo as árvores, os pássaros e a terra da qual retiro meu alimento é que percebo que sou homem. Pelo contrário, no limite de um mundo tomado completamente pela tecnologia, não há condições de auto-reconhecimento. É impossível ver-se como imagem e semelhança Divina quando não há espelhos em volta. Ora, os espelhos que exibem tal imagem estão na Criação. Assim, a humanidade não precisa Dela apenas para sobrevivência biológica, mas para sua própria existência espiritual. Pois, se o espírito não faz parte da vida, sua (não) existência não faz diferença.
A natureza reflete tanto beleza quanto violência. Ela reflete transcendência assim como sangrenta selvageria. A perfeição na organização do universo, a beleza dos oceanos, de uma flor, do pôr do sol ou o carinho de um bichinho de estimação, são todos componentes do sublime da Criação. Este estado convive com as guerras naturais entre espécies, famílias, candidatos a companheiros das fêmeas, etc. Beleza e violência convivem juntas e compõem a Criação, espelho da nossa condição divina e caída, destruída e redimida. E ainda, com um pouco mais de atenção vê-se que a Graça torna a violência na natureza algo belo e destrói barreiras impostas pelo mundo carente do Éden, de onde segue que transcendência e selvageria convivem como uma só.
Assim, uma visão reducionista a respeito do homem pode tornar-se repentinamente um louvor à plenitude da Criação, apenas com o despertar da percepção humana sobre aquilo em seu entorno. Pode-se dizer: “Veja só, a felicidade é só um amontoado de sinais cerebrais na região X!”; ou: “Belíssimo! Quando ficamos felizes acontece algo na região X !”.
Nada disso é novidade na humanidade. Muitas culturas na história têm ou já tiveram um grande respeito existencial diante da natureza. Muitos daqueles que “já tiveram” foram destruídos por aqueles que não tem respeito algum. Finalmente, comecei a ler esses dias o “Admirável Mundo Novo” e ri muito. A realidade do século XXI está toda lá, como uma profecia sendo cumprida todos os dias, basta abrir e ler.
Para terminar gostaria de manifestar o seguinte: não sinto que os cristãos protestantes brasileiros, em geral, estejam atentos ao que é realmente relevante hoje. Poucos parecem ter a sensibilidade demonstrada pelo Ellul, por exemplo, a respeito da sociedade tecnológica. Muitos têm preconceitos marcados por birras ideológicas que não os permitem direcionar seu conservadorismo para os pobres, excluídos e males inerentes à destruição do planeta e do espírito (vide, por exemplo, o texto “missões em crise” em jovemref.blogspot.com ). Outros conseguem dedicar sua pregação a temas absurdamente estranhos a um mundo próximo do desaparecimento. O problema é que não se trata mais de uma questão ideológica, mas sim de pragmatismo, obviedade e até objetividade científica: Este modelo de sociedade é excludente, assassino e serve à destruição do ser humano e da vida na terra.
lembrete
Saturday, October 31, 2009
Dia da Reforma
Friday, October 30, 2009
The Betrayal of Technology
Wednesday, October 21, 2009
Racionalismo é uma conquista do Iluminismo?
Mas, se quer manter o desejo antes afirmado, de entender a verdade pelo argumento da razão, e assim chegar a se convencer, deverá tolerar pacientemente toda a seqüência demorada que leva a um raciocínio correto e capaz de chegar à verdade de um modo especificamente racional, ou seja, a razão verdadeira. Não apenas verdadeira, mas certa, e livre de toda a aparência de falsidade. Se é que um homem que não deseja a inverdade ou a falsidade pode chegar ali por outro modo diferente.
-Sobre a potencialidade da alma, Santo Agostinho, no ano de 388 d.C.
Thursday, September 03, 2009
Sobre a nova ortodoxia...
Tuesday, August 25, 2009
O Pecado das Grandes Cidades
Há algum tempo escrevi aqui sobre a Criação Escondida: a idéia de pecado como qualquer violência contra a criação, sendo ela estética, material ou espiritual. Estes pontos são mais evidentes em grandes cidades, onde a artificialidade e tecnocracia imperam e o vínculo do homem com a natureza parece esquecido.
Somos filhos de geração que viu as cidades crescerem, os espaços outrora “vazios” serem ocupados, os bairros nascerem. Nossos avós nasceram em um país rural. Contudo, é possível que nossos filhos cresçam em apartamentos e “colham” frutas e verduras em um supermercado. Eles viverão cercados de artificialidade. Hoje já é perceptível nas pessoas um esquecimento das questões mais fundamentais da natureza, da ligação do homem à terra e à vida em geral. É como se o ser humano da grande cidade tivesse a intuição de que a comida vem do supermercado, o lixo desaparece quando descartado, a água vem de uma espécie de buraco negro subterrâneo, etc. A artificialidade que nos cerca impôs uma noção de subsistência deturpada.
No romance e fábula “Momo e o Senhor do Tempo”, Michael Ende expressa de forma brilhante a condição moderna. Os habitantes de uma cidade qualquer tem a visita de um espécie de legião de fantasmas cinzentos que convencem as pessoas a pouparem seu tempo em uma caixa econômica do tempo. Momo é uma menina que mora na rua e tem muitos amigos que apreciam sua companhia pela pureza e capacidade de ouvir que encontram na criança. Aos poucos, seus amigos são enganados pelas idéias de progresso dos homens cinzentos: o dono do boteco de velhos amigos transforma seu estabelecimento em uma rede de fast food; o outrora paciente varredor de rua trabalha em ritmo desenfreado, o contador de histórias vira um astro de TV milionário e as crianças amigas de Momo relatam que seus pais não tem tempo para elas e tentam remediar isso com brinquedos tão caros e automáticos que não se pode usar a imaginação com eles. Momo embarca em uma aventura que a leva a descobrir a fonte do tempo com o Mestre Hora e entender que a mesma é a origem da vida. Assim, o tempo roubado pelos homens cinzentos significa a morte da alma das pessoas.
A artificialidade gera tédio. Corremos o risco dos nossos filhos terem a noção do homem enquanto parte da Criação seqüestrada de seu imaginário. Podemos educá-los intelectualmente, mas corremos um sério risco de que sua intuição esqueça o pó da terra. Trata-se aqui de esquecimento semelhante aquele alertado por Padre Antônio Vieira do Sermão de Quarta-Feira de Cinzas. Significa, portanto, esquecer também da morte e do sopro do Espírito. O problema é muito mais sério do que parece à primeira vista e não se restringe somente aos pecados materiais contra a Criação, como a destruição da natureza em suas diversas formas, mas leva a uma deterioração estética e interior do homem que o leva a imaginar como natural sua condição infernal e atitude constante de violência.
Saturday, July 18, 2009
Cartas a um jovem poeta
05 de abril de 1903
" ...
Hoje eu queria dizer apenas mais duas coisas ao senhor. Primeiro, quanto à ironia.
Não se deixe dominar por ela, principalmente em momentos sem criatividade. Nos momentos criativos, procure fazer uso dela como de mais um meio para abarcar a vida. Usada com pureza, ela também é pura, e não é preciso envergonhar-se dela. Caso a intimidade seja excessiva, caso o senhor tema essa crescente intimidade com a ironia, volte-se para assuntos grandes e sérios, diante dos quais ela se torna pequena e desamparada. Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega. Assim, se o senhor seguir seu caminho à beira do que é grandioso, pergunte-se também se esse modo de compreender o mundo corresponde a uma necessidade de seu ser. Pois, sob a influência de coisas sérias, ou a ironia o abandonará (se ela for algo ocasional), ou então ela ganhará força (se lhe pertencer como algo inato) e se converterá em uma ferramenta séria, assumindo seu lugar no encadeamento dos recursos com os quais o senhor terá de construir sua arte.
... "
Queda que as mulheres têm para os tolos
I
Partindo deste princípio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.
Muitos duvidaram.
Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.
Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.
Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram.
Essa qualidade é... a toleima!
Tradução: Machado de Assis
