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October 12, 2011

Till We Have Faces ou despedida de Os decadentes


”Eu digo que os deuses agem injustamente conosco. Por que eles nem vão embora e nos deixam viver nossos poucos dias por conta própria (o que seria a melhor solução), nem tampouco se mostram abertamente e nos dizem o que eles querem que nós façamos. Por que isso seria pelo menos tolerável. Mas simplesmente sussurram dicas, aproximam-se de nós em sonhos e oráculos, ou numa visão que desaparece tão logo quanto é vista, preferem se silenciar quando nós os perguntamos e apenas cochicham (palavras que nós não podemos entender) em nossos ouvidos quando nós desejamos ser libertos deles, e mostram para alguns aquilo que escondem de outros. O que é isso senão um jogo de gato e rato, cabra-cega, ou mero malabarismo. (…) Deixem eles responderem minhas dúvidas se é que eles podem. Pode ser que eles me enlouqueçam, ou me deixem doente ou me transformem numa besta, pássaro ou árvore. Mas daí o mundo todo saberá (e os deuses entenderão) que isso é porque eles não têm resposta.”


Em “Till We Have Faces” C.S. Lewis descreve a natureza humana que, decaída, não consegue se relacionar propriamente com Deus e consequentemente tem uma visão distorcida do que é amor. A passagem acima descreve bem a maior parte do livro, que conta o mito de Cupido e Psiquê do ponto de vista da irmã desta, Orual. O livro vai muito além da narrativa central, por isso só vou contar apenas o que já é, de certa forma, conhecido por aqueles que já ouviram tal mito.


Orual é uma princesa num país bárbaro. Seu pai é um rei amargurado e frustrado por ter apenas filhas mulheres. Orual é a filha mais velha do rei e é também extremamente feia, enquanto Psiquê é possivelmente a mulher mais bonita do mundo. As duas irmãs cresceram bem próximas, tem o mesmo mentor e sempre brincavam juntas. Quando ficam um pouco mais velhas uma praga recai sobre o reino onde moram, isso ocorre pelo fato da beleza de Psiquê ter causado inveja em Afrodite. Psiquê é dada em sacrifício para salvar o reino da praga, porém um deus a salva com a condição de não mostrar-lhe o rosto. Orual vai atrás do corpo da irmã e a encontra viva, porém não acredita que Psiquê foi salva por um deus que esconde sua face. Orual pede então para que ela ilumine a face do suposto deus para que ela descubra que é na verdade uma besta, ou alguém horrível. Psiquê relutantemente obedece Orual, porém ao fazer isto descobre que quem a salvou foi Cupido, que era também extremamente bem afeiçoado. Como punição por ter visto o rosto de Cupido, Afrodite transforma Psiquê em escrava, e assim ela perde todo o contato com Orual. Orual começa sua rebelião contra os deuses e decide cobrir o rosto com um véu, para que as pessoas não notem sua feiura. Durante o restante da narrativa Orual questiona os deuses, que por sua vez não lhe dão respostas.


C. S. Lewis é especialista em trabalhar em temas como amor e dor. Neste livro ele coloca ambos os temas de maneira reveladora. Pessoalmente, acho que é muito mais fácil entender estes conceitos em forma de mitos e parábolas. No livro, o amor de Orual por Psiquê é sincero, porém ciumento, possessivo e até perigoso. Ela não promove a liberdade de quem ama, porém não há verdadeiro amor sem liberdade. Mas isso não é óbvio no livro, pelo contrário, assim como na vida real, dificilmente percebemos quando somos egoístas. Por isso eu mencionei há algum tempo a parábola da árvore generosa, que também mexeu muito comigo. A parábola da árvore generosa mostra que às vezes usamos as pessoas que amamos para o nosso proveito, assim como também podemos nos doar e nos alegramos nisso. No livro, Orual até aceita se sacrificar, mas não aceita permitir que as pessoas próximas de si sejam livres. A consequência disso é que Psiquê sofre muito e é submetida a adversidades que Orual sequer imagina. Somente quando Orual pronuncia aos deuses suas reclamações é que ela entende o quanto seu amor possessivo por Psiquê fez esta sofrer. Os amigos que estavam próximos de Orual, apesar de sofrerem com seu egoísmo, nunca reclamaram. Isso porque eles permitiram que Orual fosse livre para que ela pudesse descobrir por si própria que estava errada. Quem ama sofre. Muitas vezes, quando sofremos, somos tentados a apontar nossas reclamações para Deus. Fato é que facilmente esquecemos que Deus não precisa dar respostas sobre sofrimento porque na tradição Cristã o próprio Deus veio para se sacrificar, para que os seres humanos fossem livres. Ele é amor e Ele sabe o que é sofrer, portanto Ele nos entende.


O que eu mais gostei do livro é o fato de a própria narrativa da história ser a resposta para as perguntas de Orual. Quando ela enumera suas reclamações aos deuses, ela começa a entender mais sobre si mesmo. Isso também ocorre quando ela começa a ouvir outras pessoas e percebe que estava errada. “Eu vi o porquê dos deuses não falarem abertamente conosco, nem nos responderem. Até que as palavras possam ser retiradas de nós mesmos, porque deveriam eles ouvir murmurações que nós pensamos significar algo? Como eles podem nos encontrar face a face se nós não temos face?”


Escondemos nossas personalidades atrás de máscaras e assim como a escrita pode revelar algo de nossa personalidade, podemos também esconder ou manipular a imagem que gostaríamos que as pessoas tivessem de nós. Pode ser uma imagem intelectual, galante, profunda, educada e até mesmo politicamente incorreta. Eu tentei todas aqui no blog. Por cinco anos tentei ser o mais sincero possível, e se não o fui foi por mera incapacidade de transmitir o que sentia. Os decadentes é um refúgio secreto onde podemos publicar o que vêm a cabeça e quase ninguém lê. Por meio de poesia, música e algumas reflexões decadentes eu tentei captar o momento que estava vivendo . Infelizmente, depois de cinco anos de blog, não mudei muito. Mas já encontrei respostas para alguns dos questionamentos lançados no início do blog. Num dos primeiros posts eu escrevi que tinha uma vaidade de querer saber todas as coisas e já perdi isso faz tempo (o que também já foi descrito em outros posts). Acho que minha postura não mudou, não é a toa que minha descrição dos decadentes é um monte de criança voando. O que se encaixa bem num post de dia das crianças.


Enfim, agora vou dedicar meus esforços no outro blog que eu escrevo (que também está abandonado por algum tempo). Pode até ser que eu coloque uma música ou qualquer outra coisa pessoal aqui, mas deixo de lado minha obrigação de escrever. Agradeço imensamente a todos que leram os meus posts por dedicarem um pouco de seu tempo para conferir minhas “idéias”, se é que posso chamar de ideia o que foi publicado por mim aqui. Agradeço também aos amigos fundadores do blog que, apesar de serem muito superiores na arte da escrita tiveram compaixão e agiram com graça em me convidar para participar deste “coletivo”.


A primeira citação deste post acaba com as palavras “eles não têm resposta”. E, portanto, concluo juntamente com o livro. “Agora eu entendo, Senhor, porque você não profere resposta. Você é a própria resposta. Diante de sua face todas as questões desaparecem. Que outra resposta seria suficiente? Somente palavras, palavras; que acabam por se batalhar com outras palavras. Por muito tempo eu te odiei, por muito tempo te temi. Eu posso…”

September 30, 2011

Desejo


Desejo – Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você,
Fruto do mato,
Cheiro de jardim,
Namoro no portão,
Domingo sem chuva,
Segunda sem mau humor,
Sábado com seu amor,
Filme do Carlitos,
Chope com amigos,
Crônica de Rubem Braga,
Viver sem inimigos,
Filme antigo na TV,
Ter uma pessoa especial,
E que goste de você,
Música de Tom com letra de Chico,
Frango caipira em pensão de interior,
Ouvir uma palavra amável,
Ter uma surpresa agradável,
Ver a banda passar,
Noite de lua cheia,
Rever uma velha amizade,
Ter fé em Deus,
Não ter que ouvir a palavra “não”
Nem nunca, nem jamais adeus
Rir como criança,
Ouvir canto de passarinho,
Sarar de resfriado,
Escrever um poema de amor que nunca será rasgado,
Formar um par ideal,
Tomar banho de cachoeira,
Pegar um bronzeado legal,
Aprender uma nova canção,
Esperar alguém na estação,
Queijo com goiabada,
Pôr-do-sol na roça,
Uma festa, um violão, uma seresta,
Recordar um amor antigo,
Ter um ombro sempre amigo,
Bater palmas de alegria,
Uma tarde amena,
Calçar um velho chinelo,
Sentar numa velha poltrona,
Ouvir a chuva no telhado,
Vinho branco, bolero de Ravel...
E muito carinho meu!
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September 10, 2011

Redemoinho

Eu ando refletindo bastante em torno da obra de Guimarães Rosa. E quanto mais reflito, mais genial me parece este autor. Mas me parece um pouco de exagero, às vezes, aquilo que se pode atribuir ao autor. Como intérprete e hemenêuta penso que muitas coisas somos nós quem colocamos lá. É que hoje eu estava pensando no nome Riobaldo e é absurda a quantidade de coisas que se pode encontrar nele. Rosa ficou conhecido como alguém que gosta de brincar com as palavras. Era conhecedor de diversos idiomas e tinha uma capacidade incrível de sobrepor diversas raízes para demudar e enriquecer o significado de diversas palavras que ele escolhia para compor seus textos. Escolher uma palavra, a palavra certa, coincide com um antigo significado das palavras "colher" e "escolher" onde elas contemplam não apenas o ato de separar e reservar algo mas também uma capacidade de elaborar e criar algo novo. Ora, a palavra antiga a que me refiro aqui é a palavra grega: logos. Podemos ver este significado criativo da escolha quando pensamos, por exemplo, na idéia de "arranjo", ou seja, a maneira como arranjamos a ordem das palavras. Entre dois arranjos do mesmo dizer podemos encontrar uma diferença que pode ser aquela entre o prosaico e o poético. Uma coisa parece se eu digo que o mundo é grande; outra bem diferente se ouvimos o poeta dizendo "o mesmo" de outra maneira: "mundo, mundo, vasto mundo". E que mudou? Apenas a escolha de palavras e o seu arranjo. Escolher e arranjar coisas e palavras é um trabalho, um labor que se chama "compor". Exige criatividade, da mesma maneira como no laboratório o químico lida com compostos. Pois eis o que vemos ao observar o trabalho de Guimarães Rosa.
Um exemplo desse labor poético podemos ver na palavra "redemoinho" que compõe algo como um estribilho de Grande Sertão: Veredas; "o diabo na rua, no meio do redemoinho". Temos aí, pra começar, três palavras sobrepostas: rede, demônio e moinho. Rede desde onde o próprio Riobaldo narra sua estória. Estar deitado na rede é uma perspectiva privilegiada da vida, uma maneira de tirar os pés do chão sem voar desvairadamente, sem se desprender, uma maneira, como diz o próprio, de "especular idéia". É também a rede de pesca, que nos lembram os rios, as Veredas, em torno das quais se passam as estórias. Rede também a palavra alemã que significa nada mais, nada menos, do que "conversa", "narrativa", que podemos ligar à idéia de fios entramados, trama, o mar de histórias. Mar onde todas as histórias são uma, onde é a história sem fim, onde os personagens se perguntam pelo sentido e pelo drama de sua própria história, tal como faz Riobaldo na sua. Demo, por sua vez é o assunto da conversa, a condição de pacto da personagem. Mas tudo é pacto! Pacto é a situação de enrascada na qual nos metemos ao nascer. Algo como a facticidade ou o estar-lançado no mundo. E o trabalho que a vida nos cobra é desenroscar os nós para encontrar o eu no meio do mundo. O moinho por sua vez é novamente o suor e a dor, ou o suor e o sangue que se consomem neste trabalho de desatar nós. No Gênese uma maldição lançada por Deus sobre a serpente é condená-la a consumir pó. Mas alguns versos depois Deus declara ao humano sua condição mortal através das seguintes palavras: tu és pó e ao pó tornarás. E portanto a sentença e a maldição da serpente é alimentar-se de nós. O moinho consiste neste lugar onde somos transformados e amassados pelo Diabo, para nos tornarmos seu pão. O que me lembra a cena do Matrix em que o Morpheus segura uma pilha. Talvez pareça demais evocar a narrativa do Gênese aqui mas reparem que no "redemoinho" há ainda o "éden". Mas claro que tem também a própria roda viva, que nos prende todos em sua rede e nos faz girar e afundar na correnteza da existência: o redemoinho. Enfim, queria falar dessas coisas só pra poder falar do Riobaldo. Mas acho que o post já se enrolou demais. Fica pra próxima.
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July 29, 2011

A Árvore Generosa

Postei recentemente sobre os filmes do Spike Jonze (…and the tree was happy), onde também escrevi sobre a inspiração que ele busca em histórias infantis pra contar histórias pra gente grande. Quando escrevi não sabia o título em português de uma das histórias mencionadas no post, e acabei postando o vídeo em inglês. Mas agora achei e vou compartilhar:

July 25, 2011

The secret of the easy yoke - III


Comecei esses posts escrevendo sobre a falta de vontade de escrever. O primeiro post traz uma música do David Bazan, cujo conteúdo é parecido com o post Contact. O segundo traz a abordagem do Foster, em Celebração da Disciplina, sobre a noite escura da alma. O terceiro, como havia prometido, é sobre o livro em si. A abordagem do tema parece não é linear, porque eu não sou assim. Preferi uma abordagem prática e depois teórica, pois foi assim que eu me encontrei no meio da noite. Além do mais a ideia do livro não é prevenir uma depressão espiritual, pelo contrário, é ser um guia pra aqueles que se encontram em alguma fase da noite escura da alma. Minha leitura, foi feita a partir da tradução de Mirabai Starr, que é a mais recente. A tradução ajuda muito a entender o livro, pois não é literal, mas peca em deixar o texto muito superficial. Como eu já havia feito uma leitura anterior, eu não tive problemas, mas já aviso que a tradução de Starr não é a melhor.


Neste post eu só escrevi algumas passagens que fizeram sentido pra mim, mas que certamente são dificilmente entendidas fora do contexto do livro. Portanto, quem ficar interessado no tema, leia o livro. Tem uma tradução da Editora Vozes pro português que parece ser bem melhor do que as que eu li. E vale a pena dizer que o livro deve ser entendido no seu contexto. Por mais que a ideia de misticismo, meditação e contemplação tenha sido explorada por novas correntes religiosas, a mensagem do livro não é necessariamente compatível com outras interpretações religiosas senão a cristã. A ideia do livro não é a de aprender mais sobre si mesmo, de conhecer melhor o seu deus interior ou de se relacionar com uma força maior. O livro é baseado na Bíblia e contém ensinos cristãos. Qualquer tentativa de forçar isso em outro contexto é, em minha opinião, subversão. Isso não é preconceito, pois até a tradutora Mirabai Starr que não parece ser cristã, afirma isso na introdução a sua tradução do livro. Claro que o livro não é de propriedade exclusiva de cristãos, e certamente qualquer um pode aprender com o livro, mas o livro é mais bem apreciado dentro do contexto em que foi escrito.


Entender o processo da noite escura da alma não é fácil. Muita gente pensa que isso ocorre quando passamos por dificuldades, quando perdemos alguém, quando nos decepcionamos, mas a noite da alma vai muito além disso. Pessoalmente, eu demorei a entender o que estava acontecendo. Depois de um ano sabático minha alma passou a descansar e a sensação que tive foi a de que Deus também decidiu descansar. E é estranho, principalmente devido minha criação ter se dado num contexto evangélica, apreciar esta “despedida” de Deus. Fato é que essa perda é extremamente dolorosa. Lançamos nossas orações a Deus e parece que elas param nas nuvens. Batemos na porta e sabemos que Deus está do outro lado, mas não ouvimos nada. Em nenhum momento eu passei a duvidar de Deus, muito menos de um Deus pessoal, mas isso somente tornava as coisas mais difíceis. É um sentimento de abandono, ”meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt: 27:46). O sentimento de abandono e não de negação do Criador. Sei que falar sobre o tema, hoje em dia, parece heresia, mas não o é. Tal sentimento é traduzido em música por David Bazan em várias músicas, mas a passagem que pra mim faz mais sentido é o refrão de Bad things to such good people: ”All the while, the good Lord smiles, and looks the other way”. Na Bíblia também vemos vários exemplos dessa procura sincera por Deus. A passagem de Lamentações 3:1-20 ilustra bem essa fase assim como alguns Salmos também expressam tal agonia: ”Direi a Deus, minha Rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que devo sair vagueando e pranteando, oprimido pelo inimigo? Até os meus ossos sofrem agonia mortal quando os meus adversários zombam de mim, perguntando-me o tempo todo: Onde está o seu Deus?” (Sl 42: 9,10) e “Desperta, Senhor! Por que dormes? Levanta-te! Não nos rejeites para sempre. Por que escondes o teu rosto e esqueces o nosso sofrimento e a nossa aflição?” (Sl: 44 23,24).


Voltando ao livro, a Noite escura da alma é baseada num poema que o próprio São João da Cruz escreveu. No primeiro verso ele escreve:


En una noche oscura,

con ansias en amores inflamada,

(¡oh dichosa ventura!)

salí sin ser notada,

estando ya mi casa sosegada.


A fase da noite escura da alma é uma fase de dolorosa transição. Onde aprendemos a andar sozinhos. Assim como crianças, temos que aprender a andar por conta própria, não podemos depender sempre dos nossos pais. Por isso os pais parecem menos ativos na vida da criança, porém o amor deles não muda. Nessa fase sentimos esse distanciamento do Criador. Primeiramente nossos sentidos são escurecidos. Nosso apego por coisas materiais desvanece. Essa fase é necessária pra que Deus se aproxime de forma real nas nossas vidas. O vazio que fica das coisas sensoriais será preenchido por Deus. É a parte mais fácil da jornada. O segundo verso fala a respeito da parte espiritual, que é onde a muito até mesmo desistem dessa jornada.

 
A oscuras y segura,
por la secreta escala disfrazada,
(¡oh dichosa ventura!)
a oscuras y en celada,
estando ya mi casa sosegada.

Essa fase é complicada de entender. Se a luz divina nos tira da ignorância, qual o motivo de nossa alma entrar na escuridão? Fato é que quanto mais claras são as coisas de Deus, mais escuras elas são pra nossa alma. Assim como o sol é fonte de luz, se olharmos pra ele diretamente todo o resto se torna escuro. Assim como o salmista diz “Nuvens escuras e espessas o cercam; retidão e justiça são a base do seu trono” (Salmos 97:2). Quanto mais brilhante e pura a luz, mais ela escurece nossa alma. O contrário acontece com nossos olhos, que nos enganam. Por exemplo, quando a luz entra por uma janela empoeirada ela ilumina as partículas que lá estão, não é a luz em si que vemos. Porém quando a janela é transparente, a luz é invisível aos nossos olhos. Na nossa caminhada com Deus nossos olhos físicos devem ”permanecer fechados” para as nossas vontades, pois assim estamos livres para Deus nos guiar.


A noite escura da alma é dolorosa por que é nela que Deus nos purifica. Ele faz isso para que tenhamos um relacionamento perfeito com Ele. Assim como o fogo age na madeira, ele primeiro destrói a madeira até que a madeira se torne também fogo. Primeiro o fogo retira e seca toda a umidade da madeira. Daí a madeira se torna escura e começa até mesmo a cheirar mal, e o fogo vai retirando todas as propriedades da madeira até que ela se torne um belo fogo. Nesse momento de purgação nos sentimos fracos e é nessa hora que Deus fala (e.g. Daniel 10:7-8). ”O amor é como fogo, que sempre queima para o alto, clamando por ser completamente absorvido”.


En la noche dichosa,
en secreto, que nadie me veía,
ni yo miraba cosa,
sin otra luz ni guía
    sino la que en el corazón ardía.                 

“Não havia outra luz ou guia, senão o coração que ardia”. Finalmente, apesar dessa jornada não ter apoio de luz interior ou entendimento, nem mesmo acompanhamento exterior, ainda assim o coração solitário misteriosamente anseia por um relacionamento mais intenso com Deus. E é apenas assim que podemos numa caminhada escura, de forma profundamente miraculosa, dizer: Que doce, doce noite!

July 12, 2011

Bíblia, desenvolvimento e liberdade


Novamente não vou escrever um tratado sobre o assunto, mas sim um pouco do que eu aprendi em minha viagem à África ano passado. Era pra eu ter postado antes, mas não sei por que este texto ficou escondido no meu computador. Me perdoem se o conteúdo parecer um tanto superficial. Essa não é minha área, mas como eu estive fazendo um estágio com Wycliffe/SIL eu vou contar um pouco do que me impressionou durante meu estágio.


No ano passado eu viajei para Burkina Faso para acompanhar minha esposa em um estágio com a Sociedade Internacional de Linguística (SIL). A SIL é, conforme descrição no site brasileiro: “uma organização de vida consagrada, sem fins lucrativos, comprometida em servir as comunidades linguísticas ao redor do mundo, principalmente através de pesquisa, tradução, treinamento e desenvolvimento de materiais nessas línguas”.[1] Outra organização que é parte do mesmo trabalho é a Wycliffe,[2] que no Brasil tem o nome de ALEM.[3] Eu fui para Burkina Faso pra conhecer melhor a organização e entender mais sobre os projetos de tradução que eles desenvolvem.


Em Burkina Faso, segundo a ONU o terceiro país mais pobre do mundo, eu pude ver como projetos de tradução da Bíblia levam desenvolvimento a povos esquecidos pelas grandes potencias mundiais. Para explicar o link entre tradução e desenvolvimento eu tenho que recorrer rapidamente a história da tradução da Bíblia. A Bíblia foi traduzida dos originais (hebreu, aramaico e grego) primeiramente para o grego (Septuaginta) e depois para o latin (Vulgata). Essas traduções foram feitas entre os século II e IV e foram praticamente as únicas até a Idade Média.

A Europa se tornou então o centro do cristianismo. A igreja católica tinha muito poder político e já havia se desviado bastante dos ensinamentos de seu fundador. Alguns teólogos se indignaram com a situação e resolveram mudar. É aí que entra John Wycliffe que estudou ciências naturais, matemática e teologia. Ele foi o primeiro a traduzir a Bíblia pro inglês, e na época qualquer tradução da Bíblia era considerada como heresia. Fato é que a igreja já sabia que conhecimento é algo perigoso e que a tradução da Bíblia iria gerar mais criticismo fora do clero. Lutero também seguiu a mesma linha de pensamento de Wycliffe e traduziu a Bíblia para o alemão.


O mais importante de tudo isso é que a Bíblia ficou acessível à população. A palavra de Deus passava a ser a língua do indivíduo e não mais uma língua estranha. Com isso a alfabetização se desenvolveu, assim como a produção de livros, e em consequência disso as pessoas passaram a ter maior conhecimento e senso crítico. Assim sendo, a partir do momento que as pessoas passaram a ler a Bíblia em sua própria língua a liberdade delas aumentou. Os leitores tinham agora, de certa forma, liberdade para acreditar ou não no que estava sendo pregado.


Meu principal medo de trabalhar em Burkina Faso com a Wycliffe era a de que a organização de certa forma pressionasse as pessoas a aprenderem a ler através da Bíblia, já que ninguém mais iria ensinar povos distantes a ler. Isso era na verdade mero preconceito. O trabalho é de uma dedicação incrível. A tradução de uma língua demora de 12 a 14 anos, e as condições não são nem um pouco favoráveis. Além disso, os linguistas ficam praticamente isolados e dificilmente tem uma conversa intelectual instigante onde moram e trabalham (e isso afeta bastante quem esta longe dos amigos e família). A Bíblia só é traduzida se o povo assim deseja, caso contrário apenas os livros de alfabetização são desenvolvidos e outra literatura base é traduzida. Além de manter línguas, e consequentemente culturas e tradições, a leitura da Bíblia também ajuda as pessoas a não seram exploradas por falsos “conhecedores” da Bíblia.


Sei que é difícil entender o contexto, até por que no Brasil há poucos analfabetos. Como lemos sinais o tempo todo, fica difícil saber como é a vida de um analfabeto. Eu me senti assim quando viajei pra Ucrânia e não conseguia ler nenhuma letra direito. Se me passassem alguma informação de lugar eu não conseguiria achar porque eu não sabia ler o alfabeto cirílico. É uma experiência terrível. Saber ler num país onde apenas 25% da população é alfabetizada (e em 1990 eram apenas 12%) gera oportunidades incríveis. Conheci jovens que foram encorajados a estudar mais para trabalhar com a Wycliffe, e para isso estudaram na universidade, alguns fizeram mestrado e alguns até mesmo viajaram para outros países para fazer doutorado e voltaram para traduzir sua língua materna. Creio que a melhor experiência que eu tive em Burkina Faso foi servir uma organização que, através da tradução da Bíblia, promove desenvolvimento e consequentemente liberdade para povos que estão marginalizados.


[1] http://www.sil.org/americas/brasil/SILquemsomos.html

[2] http://www.wycliffe.org/

[3] http://www.missaoalem.org.br/sobare-a-aelm.html

July 2, 2011

...and the tree was happy.


Acho que esse é o meu primeiro post sobre filmes e já adianto que não sou nenhum especialista, nem sou de fazer analises profundas. Minha última aquisição foi o Gift Set do Beavis e Butt-Head então não esperem muito dessa resenha atrasada. Ano passado assisti vários filmes do Spike Jonze, e era pra eu ter escrito naquela época, mas não tive tempo e ficou pra essas férias. Enfim, o Spike Jonze é um dos diretores mais versáteis que eu conheço e um dos que eu mais aprecio. Acho que os primeiros vídeos que eu vi dele foram os vídeos de skate, Blind - Video Days e Girl – Mouse. Na mesma época ela já havia dirigido um monte de Clipes excelentes, como Buddy Holly do Weezer e Sabotage do Beastie Boys. Os filmes que ele dirigiu eu demorei mais pra assistir.

Os longas que ele dirigiu foram: Being John Malkovich, Adaptation e Where the Wild Things Are. Por ser versátil, ele poderia se perder misturando pop art com cinema, mas isso não acontece. Os personagens dos filmes são, na minha opinião, bastante complexos. A forma como eles expressam sentimentos como ansiedade, medo e raiva se aproxima muito da realidade. Basta ver as atuações de John Cusack (em Being John Malkovich), Nicolas Cage (em Adaptation) e dos monstros (em Where the Wild Things Are) pra perceber isso. Os longas que Jonze produziu são criativos e profundos ao mesmo tempo em que nos fazem rir de nossa própria condição. Apesar disso, Jonze não perdeu o lado despojado skatista e também criou e produziu a série Jackass.

Outra vertente de Jonze é a recente produção de filmes sobre infância, ou sobre histórias infantis. Tais filmes não são necessariamente voltados ao public0 infantil, mas a base das histórias é. Em Where the Wild Things Are Max é uma criança sozinha e triste. Nosso saudosismo muitas vezes nos impede de ver que também há sofrimento na infância, e isso é uma forma de preparação para a vida adulta. Where the Wild Things Are revela a fase onde a criança descobre que não é mais rei ou rainha do mundo, porém, ela continua sendo amada. É uma relação de amor sem necessária retribuição. Esse contraste de uma relação de um ser mais egoísta e outro com um amor incondicional frequentemente ilustrada na relação pais e filhos, mas também ocorrer entre namorados. E essa foi a sacada de Jonze no curta I’m Here (se quiserem assistir o video clique aqui). O curta parece simples e é, de fato, baseado num conto chamado The Giving Tree (aqui está o link pra quem quiser assistir no youtube: The Giving Tree).


The Giving Tree é uma história extremamente simples e ao mesmo tempo profunda (pelo menos eu achei). O roteiro é sobre um garoto e uma árvore. Ambos adoravam estar juntos, mas o garoto, cresce e apenas usa a árvore pro seu bem próprio. No fim a árvore perde tudo o que tem, mas ainda assim encontra felicidade em se doar ao menino. Em I’m Here essa ideia de doação e graça é demonstrada num relacionamento “adulto” e adaptada num contexto mais moderno, mas a essência é a mesma.


Em minha opinião, o mais incrível dessas estórias é que, por mais que possamos nos identificar mais com um personagem, também nos vemos retratados em outros. De certa forma, todos nós vivemos essa relação dúbia de doação e egoísmo. Achei uma citação que descreve bem significado do conto The Giving Tree. Ben Jackson (professor de Estudos Religiosos da Universidade de Stanford) explica: “Is this a sad tale? Well, it is sad in the same way that life is depressing. We are all needy, and, if we are lucky and any good, we grow old using others and getting used up. Tears fall in our lives like leaves from a tree. Our finitude is not something to be regretted or despised, however; it is what makes giving (and receiving) possible. The more you blame the boy, the more you have to fault human existence. The more you blame the tree, the more you have to fault the very idea of parenting. Should the tree's giving be contingent on the boy's gratitude? If it were, if fathers and mothers waited on reciprocity before caring for their young, then we would all be doomed”. Tudo isso pra dizer apenas que vale a pena assistir os trabalhos de Spike Jonze.

June 29, 2011

Contact

Ajuntei uns cds antigos na minha recente visita ao Brasil e redescobri um cd que eu escutei muito em 2007/2008. O conceito do album é muito bom. Ele é parciamente revelado na metade do album com a música Clouds que simplesmente repete:

Is your love really love?
is my love really love?
I think our love isn't love
unless it's love to the end

Is your God really God?
is my God really God?
I think our God isn't God
if he fits inside our head

As letras vão contra a idéia de um Deus lógico, previsível e manipulável. No momento, minha música preferida é Contact.


Letra:

Hearts aren't really our guides.
We are truly alone.
'Cause God ain't up in the sky,
Holding together our bones.

Remember we used to speak.
Now I'm starting to think,
Your voice was really my own,
Bouncing off the ceiling back to me.

God, this can't be.
God, this can't be,
God, could it be that all we see is it?
is this it?
is this it?

Won't you come down, heaven.
Won't you come down?
Won't you cut through the clouds?
Won't you come down?

Oh, my heaven, why do you have doors to close?
Do you have clouds to stop his voice on the way down?

God, this can't be.
God, this can't be,
God, could it be that all we see is it?
Is this it?

God, does grace reach to this side of madness?
'Cause I know this can't be,
The great peace we all seek.

Won't you come down, heaven.
Won't you come down?
Won't you cut through the clouds?
Won't you come down?

Did your clouds stop his voice?
and brother have you found the great peace that we all seek?
you say take a look around
if there's a God then he must be asleep
God must be asleep


June 26, 2011

Dois poemas do meu amigo Geraldo:

Pulsa

Bem aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Mateus 5, 4-6

Até quando escreverei poemas sobre morte
todos os dias só fim sem começo
angústia e amargura e injustiça
sobre esperança e renascimento
neste mundo resta pouco a dizer
estou cego e não escuto
falta-me a forte compreensão
queria como os loucos
virar o mundo do avesso
recriá-lo ao prazer da justiça
serenidade e amor e paz
então triste dou o que me resta
como sombra e sofreguidão
essas palavras pequenas
esse grito abafado
pulsante como as vidas
apagadas dias atrás.

Cidade de Goiás, 30 de maio de 2011.


Como é fácil

Como é fácil ser ambientalista
na cidade grande:
reciclo o lixo, sacola retornável
e me sinto muito bem.

Como é fácil ser comunista
na universidade:
estudo Marx, escrevo um livro
e me sinto muito bem.

Como é fácil ser ruralista
no sertão do Brasil:
roubo a terra, corto o mato,
mato alguns
e me sinto muito bem.

Como é fácil ser grande empresário
na cidade ou no sertão:
isenção fiscal, BNDES,
exploro milhares
e me sinto muito bem.

Como é fácil criticar de longe
o mundo todo:
cuspo umas palavras,
um gosto amargo na boca,
nenhuma diferença,
mas não me sinto muito bem.

Cidade de Goiás, 27 de maio de 2011.

June 25, 2011

Brasilidade -- Guimarães Rosa

Um exemplo magnífico; o daimon de Lorca e também o daimon de Goethe são exemplos exatos para tais coisas indizíveis. Duvida-se da existência da “brasilidade”, mas ninguém mais põe em dúvida que exista um “duende” ou a “hispanidade” de Unamuno, pois foram exemplificados pela vida. Fale­mos de “brasilidade”: nós os brasileiros estamos firmemente per­suadidos, no fundo de nossos corações, que sobreviveremos ao fim do mundo que acontecerá um dia. Fundaremos então um reino de justiça, pois somos o único povo da terra que pratica diariamente a lógica do ilógico, como prova nossa política. Esta maneira de pensar é conseqüência da “brasilidade”. Outro exemplo, desta vez referente a mim mesmo, para que você possa acreditar tranquilamente — estou certo de que você fará esta pergunta durante nossa conversa, por isso antecipo a resposta. Eu não sei o que sou. Posso bem ser cris­tão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão crente à la Tolstoi. No fundo, tudo isto não é importante. Como homem inteligente, às vezes pode-se sentir necessidade de se tornar um beato ou um fun­dador de religiões. A religião é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidades lingüísticas. Desta forma, pode acontecer que uma pessoa forme palavras e na realidade esteja crian­do religiões. Cristo é um bom exemplo disso. Também isto é “brasi­lidade”. Um terceiro exemplo: segundo nossa interpretação brasilei­ra, não muito cristã» mas muito crédula, o diabo é uma realidade no mundo. Está oculto na essência das coisas, e faz ali suas brincadei­ras. A ciência existe para expulsar o diabo. O homem sofre sempre o desespero metafísico, pois conhece a existência do diabo e pode assim liquidá-lo, superando-o até conseguir uma humanidade sem falsidades. Também isto é “brasilidade”. Poderia ficar várias horas dando exemplos como esses, mas não teria sentido. Para compreen­der a “brasilidade” é importante antes de tudo aprender a reconhecer que a sabedoria é algo distinto da lógica. A sabedoria é saber e pru­dência que nascem do coração. Minhas personagens, que são sem­pre um pouco de mim mesmo, um pouco muito, não devem ser, não podem ser intelectuais, pois, isso diminuiria sua humanidade.
 
-- Guimarães Rosa em conversa com Günter Lorenz.