Que coisa tão reles e baixa que é a vida! Repara que para ser baixa e reles basta não a quereres, ser-te dada, nada depender da tua vontade, nem mesmo da tua ilusão da tua vontade.
Morrer é sermos outros totalmente. Por isso o suicídio é a cobardia; é entregarmo-nos totalmente à vida. - Bernardo Soares in Livro do Desassossego 229
Como não poderia não ser – como filósofo que sou – me ponho a responder pela essência da coisa em questão. Vale ressaltar que há uma diferença entre decadente e decaído, falarei disto adiante. O de-cadente é o que obedece com muito pesar a cadência própria da vida. A cadência da vida é bela e triste. A cadência da vida é bela pois ela reune em si a possibilidade de tudo – ao menos para nós, que somos vivos. Enquanto possibilidade esta cadência possui em si também a possibilidade de tudo o que é verdadeiro, bom e belo, de todas as alegrias, prazeres e gozos que a vida oferece. Mas esta mesma cadência é triste porque nela mesma podemos ver seu fim. Isto é, que a vida acaba. E este fim da vida nos faz antever a vaidade de tudo o que nela se passa. É portanto necessário ser vivo para viver tudo o que a vida oferece, e isto é belo. Mas esta mesma vida é – em si mesma – vã, o que é o triste. Concordamos então com esta beleza e com esta tristeza: somos Decadentes.
Há, no entanto, uma outra cadência mais problemática do que esta primeira. Bem poderíamos chamá-la de recaída. Ela recebe o nome de Queda. Esta segunda cadência, não reconhece a primeira, acrescentando à tristeza o sofrimento. Pois a vaidade da primeira cadência era o que tornava possível uma vida eterna sem tédio. A segunda cadência procura negar a vaidade, e com isso ela recai numa vaidade ainda maior: a de crer que há algo na vida que não é vão. Essa crença é muito perniciosa, nos faz cair numa busca sem fim (pois o fim é justamente a vaidade, que a Queda nega) do que os antigos chamaram de felicidade. Que seria um tipo de “prazer pleno” ou “alegria que não acaba” - ninguém sabe ao certo (mesmo porque é vão tentar definir algo que não existe) – ou seja, algo que provaria que a vida não é vã. Esse prazer ou esta alegria corrompidos seriam para o decaído uma espécie de garantia de que ele os teria sempre que quisesse. Não seriam alegria ou prazer verdadeiros, pois seriam uma espécie de posse; e a alegria e o prazer, como todos sabem, não são posses mas algo de diverso de fortuito; e só podemos gozar a alegria e o prazer porque eles não estão sob o nosso controle, pois eles são feitos da mesma matéria que a vida – que evidentemente não é algo que controlamos.
O Decadente, portanto, não é como o decaído. Em verdade todos nós uma vez por outra somos decaídos. Uma vez por outra, quero dizer, que nós o saibamos, pois as Escrituras revelam que somos decaídos sempre. E não há nada hoje mais raro do que a decadência, que é crer que somos culpados pela Queda, por sermos decaídos, e que tudo o que podemos fazer é continuar seguindo a cadência da Vida. Pois o decaído é o que procura, de todas as formas, ou negar a própria Queda, ou procurar algum remédio para ela, no primeiro caso é orgulhoso, no segundo quer ter algum mérito por saber se remediar – o que é menos orgulhoso, mas orgulhoso. Mas estes remédios, todos eles, não passam de remendos malfeitos que não remediam nada, pois o único remédio seria não ter recaído e ter confiado que a vida era boa mesmo sendo vã. E este continua sendo o único remédio, com a ressalva de que agora precisamos reconhecer que decaímos da cadência originária da vida, e que precisamos retornar a ela. O remédio de não crer na vaidade da vida é a morte. Pois agora é necessário viver a morte (que é a vaidade em sua forma mais radical) para que creiamos que a vida é vã. Antes da morte sempre recairemos nesta crença de que a vida não é vã, a mais vã de todas as crenças. E se não morremos corremos o risco da dor, do desprazer e do sofrimento eternos.
Foi necessária esta explanação porque a Queda acrescenta o sofrimento à beleza e tristeza da vida. E o verdadeiro Decadente vive também este sofrimento, é o que se chama carregar a própria cruz. Que vai além do peso da existência, existir é por si mesmo um peso, mas existir e insistir na vaidade da existência é mais pesado ainda! Pois quem existe e afirma a vaidade da existência afirma, na verdade, que não existe. “I do not exist/ Faithfully insist.”
Ainda em mim retorna a doce primavera,
Ainda o alegre coração não envelhece,
Ainda o olho meu amor o orvalho vela,
Ainda a espera de prazer a dor me aquece.
Ainda em mim confia com mais doce agrado
O firmamento azul e o verde da planura,
E me oferece a taça da alegria a Deusa,
A amissíssima jovialíssima Natura.
Confia, que esta vida vale as próprias penas,
O tanto quanto Deus nos ilumine pobres,
E pairem n'alma imagens de melhores cenas,
E assim, conosco um amistoso olhar, ah, chore.
-Friedrich Hölderlin
3 Comentários:
Esse vale como um pósfácio à Criação em Gênesis!!
Messes Of Men
"I do not exist,"
we faithfully insist
sailing in our separate ships,
and in each tiny caravel -
tiring of trying, there's a necessary dying
like the horseshoe crab in its proper season sheds its shell
such distance from our friends,
like a scratch across a lens,
made everything look wrong from anywhere we stood
and our paper blew away before we'd left the bay
so half-blind we wrote these songs on sheets of salty wood
you caught me making eyes at the other boatmen's wives
and heard me laughing louder at the jokes told by their daughters
I'd set my course for land,
but you well understand
it takes a steady hand to navigate adulterous waters
the proppeller's spinning blades held acquaintance with the waves
as there's mistakes I've made no rowing could outrun
the cloth low on the mast like to say Ive got no past
but I'm nonetheless the librarian and secretary's son
with tarnish on my brass and mildew on my glass
I'd never want someone so crass as to want someone like me
but a few leagues off the shore, I bit a flashing lure
and I assure you, it was not what it expected it to be!
I still taste its kiss, that dull hook in my lip
is a memory as useless as a rod without a reel
to an anchor-ever-dropped-seasick-yet-still-docked captain spotted napping with his first mate at the wheel floating forgetfully along, with no need to be strong. we keep our confessions long and when we pray we keep it short
I drank a thimbleful of fire and I'm not ever going back
Oh, my G-d!
"I do not exist," we faithfully insist
while watching sink the heavy ship of everything we knew
if ever you come near I'll hold up high a mirror
Lord, I could never show you anything as beautiful as you
mewithoutyou
xxxthiagoxxx
In a sweater poorly knit
In a sweater poorly knit, and an unsuspecting smile
Little Moses drifts downstream in the Nile
A fumbling reply -- an awkward, rigid laugh
I'm carried helpless by my floating basket raft
Your flavor in my mind swings back and forth between sweeter than any wine, and bitter as mustard greens
Light and dark as honeydew and pumpernickle bread
The trap I set for you seems to have caught my leg instead
As you plow some other field and try and forget my name, see what harvest yields, and, supposing I'd do the same
I planted rows of peas, but by the first week of july -- they should have come up to my knees but they were maybe ankle high
Take the fingers from your flute to weave your colored yarns, and boil down your fruit to preserves in mason jars
But now books are overdue and the goats are underfed... the trap I set for you seems to have caught my leg instead
You're a door-without-a-key, a field-without-a-fence
You made a holy fool of me, and I've thanked you ever since
If she comes circling back, we'll end where we'd begun
Like two pennies on the train track the train crushed into one
Or if I'm a crown without a king, if I'm a broken, open seed
If I come without a thing, I come with all I need
No boat out in the blue, no place to rest your head
The trap I set for you seems to have caught my leg instead
I
do
not
exist
only
YOU
exist
mewithoutYou
xxxthiagoxxx
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